Big Techs & Big Troubles

SuperApps vs SuperDevices

O Hardware é a nova fronteira do digital. De novo. E aqui você entende qual as estratégias das Big Techs para o segmento.

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Ele já foi considerado o ponto central da inovação digital. Já foi, e em alguns casos ainda é, símbolo de status. Porém, em alguns mercados, passou a ser coadjuvante e sendo considerado até uma commodity, até que voltou ao centro das atenções como sendo ponto chave, e estratégico, da inovação, fazendo com que diversas empresas que antes surfavam “apenas” com serviços e conteúdos “over the top” passassem a querer ter um para chamar de seu. Estamos falando dele, do hardware… Pense rapidamente, nos últimos anos, tudo que evoluiu em serviços e conteúdos digitais; foi lançado por uma empresa de hardware ou por uma empresa “sem hardware”? O que lhe entretém na TV, as horas que você passa no seu smartphone, os conteúdos que ali consome, as suas compras online… em sua grande maioria, são modelos de negócios que se utilizam dos devices e dos ecossistemas de terceiros. Porém, esses provedores de infraestrutura começaram a querer cada vez mais controlar os negócios que acontecem em seus territórios, em alguns casos competindo (e muitas vezes não de forma justa) com seus até então parceiros. E esse novo modelo fez com que empresas que até então tinham suas fortalezas criadas sobre palafitas começassem a verticalizar suas operações, entrando no jogo dos devices e chegando, desta vez literalmente, até as mãos, casas e garagens de seus clientes. Afinal, para alguns, mais importante do que fazer parte de um ecossistema, é ter a porta de entrada para ele, pois se você depender da porta dos outros, um dia ela pode fechar… 


iCarro e Tesla Phone

Sim, vamos falar novamente aqui das duas notícias que comentamos durante esta semana: a Apple está cada vez mais próxima de lançar o seu próprio carro elétrico e autônomo, enquanto já existe rodando pela internet um protótipo de smartphone da Tesla. O iCarro, que já entrou e saiu de pauta algumas vezes, voltou para o projeto agora em 2020, e, segundo a mídia especializadíssima-em-Apple, já é liderado por John Giannandrea, o “cara” da AI e da machine learning da Apple. Além disso, o iCar contará com um chip especializado para veículos autônomos. De acordo com eles, o chip será feito de processadores neurais, capazes de ler e responder à AI com rapidez. Já o smartphone da Tesla é apenas um projeto que está rodando pela web. Comentamos por aqui. Mas a ideia seria colocar no smartphone todas as capacidades dos carros da Tesla, como a bateria solar recarregável, a possibilidade de se conectar com os satélites da Starlink. 

Aluga-se este terreno (digital)

Saber que a Apple, que sempre pensou seus devices em torno de uma plataforma, está planejando lançar um carro elétrico para 2025 nos dá uma coceira para tentar entender o modelo de negócio que eles criarão para este automóvel. Teriam eles a vontade de controlar tudo o que acontece nesse novo ecossistema assim como acontece nos Smartphones? Contratar um seguro ou abastecer o iCar teria de ser pela Apple Store? Como vai ficar o sistema de pagamentos? Aberto? Fechado? Qual sistema operacional eles vão escolher para esse carro? Como ficará a privacidade de dados dos usuários dos carros? E a mesma coisa acontece pensando na Tesla, que já tem uma plataforma para suportar a venda de serviços em seus carros – como espaço a mais no software ou vozes diferentes para a buzina. O que significaria a Tesla com um smartphone? Será que abriria mais espaço para outros apps? Ou seriam apenas aplicativos próprios? E como fica um Facebook ou um TikTok para funcionar num carro ou num smartphone? Como fica para as desenvolvedoras? Todas essas perguntas, na verdade, podem se resumir a um desafio: construir uma Big Tech em cima de um “terreno alugado”.  E como cada vez mais elas percebem que para deter a audiência, também precisam ter a parte do hardware. Porque é o hardware, ou melhor, a plataforma que faz o hardware girar que detém o poder de ditar as regras do jogo. De um jogo que, inclusive, está para começar. 

A Meta da Meta

Esse sufoco de se estar num ambiente com uma audiência de bilhões, mas que pode mudar com uma canetada aleatória, foi exatamente o que o Facebook passou nos últimos dois anos, tentando lidar com as mudanças de regra de privacidade da Apple. O que levou até mesmo a “acabar” a amizade entre Tim Cook e Mark Zuckerberg. De qualquer forma, a resposta do Facebook foi alta e clara: a Meta. O foco no metaverso é, na verdade, o foco em hardware. Porque o FB já está prometendo, além de seus óculos de realidade virtual e aumentada e seus smartglasses, outros tipos de devices, como luvas e qualquer aparelho capaz de criar uma experiência imersiva para fazer o metaverso funcionar. A plataforma digital, querendo ou não, eles já têm. Tanto o WhatsApp, quanto o Facebook e o Instagram conseguem, juntos, criar um lugar digital para que as pessoas conversem, comprem, interajam… Em outras palavras, habitem. O hardware é a linha que falta para a Meta, de fato, decolar. Lembram que eles informaram que irão lançar lojas físicas? Pois então, precisam de mais indicativos? Aqui está o esforço claro para apresentar e permitir a “degustação” deste novo mundo digital… Outras companhias de tecnologia que estão apostando no metaverso, como a Epic Games e a Roblox, ainda não se posicionaram com relação ao hardware. Estão apenas tornando seus sistemas cada vez mais abertos para terceiros desenvolverem dentro das interfaces gráficas. O que, num primeiro momento, traz receita, mas.. o que acontece quando a regra do device exigir que a Epic funcione de certas maneiras (e isso eles bem sabem, já que estão numa briga judicial com a Apple por conta das taxas da App Store)?

HaaH: Hardware as a Hub

O negócio é que, pensando na experiência da internet imersiva, o hardware se torna uma peça central para as companhias se conectarem com os usuários. Isso sem contar que estamos falando de um espaço ainda não explorado. Se o mercado de smartphones meio que já se resolveu com dois grandes players e algumas fabricantes crescendo nas beiradas, o mercado de carros autônomos (que poderão, sim, ser um espaço para expandir a imersão digital), de realidade virtual e realidade aumentada, de imersão, de robótica, ainda está aí, em aberto. Não estamos projetado aqui que o smartphone vai morrer ou nada do tipo, mas é de se pensar que, com o 5G e todo mundo olhando pro metaverso, haverá a necessidade de um device diferente. 

O metaverso 4.0 

Esse é o momento que a gente vai para o futuro, mesmo. Porque a gente sabe de um “device”, ou seria um vestível, que a Tesla está criando que, se funcionar, poderá mudar tudo que conhecemos por hardware. Estamos falando dos chips da Neuralink, que são capazes de conectar as nossas ondas cerebrais com computadores. O projeto está em fase de testes, no começo deste ano, a Neuralink conseguiu fazer um macaco jogar um game, apenas com a força do pensamento. Musk falou lá em fevereiro que os testes em humanos poderiam já começar no fim de 2021. De qualquer forma, apenas imaginem o que uma tecnologia destas pode fazer no mundo do hardware… Só imagine!

Devolve o meu chip  

Mas, falando de coisas mais concretas. Muito antes da atual falta de chips do mercado, que está impactando até mesmo a entrega de carros, as grandes empresas de tecnologia já estavam dando os seus pulos para produzir os seus chips. Neste ano, a Apple informou que os iMacs e iPads usarão o seu processador M1, no lugar dos da Intel; a Tesla já está criando o seu próprio chip capaz de rodar inteligência artificial, o Dojo, assim como o Facebook, que também projeta lançar o seu. O Google e a Microsoft não ficaram de fora, e também já anunciaram que vão seguir nesta de criar os próprios chips, principalmente os “networking chips” e os que podem rodar AI.  A Amazon saiu na frente (não é a primeira vez na vida que já leram essa frase, temos certeza), e começou a pensar nos chips próprios desde 2015. A tecnologia, inclusive, foi o empurrão para a Big Tech entrar de vez na venda de devices e é exatamente o nosso ponto aqui. Secretamente, as maiores empresas de serviços digitais do mundo começaram a se tornar, também, companhias de hardware. E, também secretamente, as companhias que já faziam seus aparelhos começaram a migrar para outros tipos de produto que conseguem rodar parte da inteligência que eles já têm em seus serviços. Ah, e o melhor de tudo, a um custo relativamente mais baixo.   Aqui lembramos que, nessa jogada de lançar seu device, a Amazon e a Tesla têm um “pontinho a mais” no quadro: eles também têm satélites. Sim, satélites. Para poder apoiar o crescimento da rede dos carros smart, e também de todos os outros tipos de aparelhos que dependem de conexão, as companhias estão indo para o ar. A Tesla, por meio da Starlink, já colocou algumas centenas de satélites de internet rápida em órbita. A Amazon, a partir do Projeto Kuiper, vai colocar os seus no ar no final do ano que vem

Pense Bem

Num mundo onde teremos cada hardware criando um novo ecossistema, e cada ecossistema querendo ter o seu próprio hardware, não estamos falando apenas de um novo capítulo na história do digital, mas talvez começando num novo livro para contar essa história. Um momento importante para que nós, enquanto marcas e usuários destas novas redes de plataforma, não nos deixemos levar, e enganar, pelas praticidades do agora, correndo o risco de deixar de mão beijada o controle dos alicerces da vida digital do amanhã. Que cada novo device, plataforma, ecossistema ou serviço criado possa sim ter um espaço na nossa vida e nos nossos negócios, mas que não seja o único espaço…

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