GHOST INVERVIEW #28| Jony Ive passou por aqui

3 de julho de 2019 Off Por morse

De olho no burburinho da semana, não tinha como falarmos de outro assunto ou de outra pessoa. Sim, amigos, Sir Jonathan Ive saiu do seu posto de Chief Design Officer da Apple e veio diretamente para o Ghost Interview

Como menos é mais, simplicidade é tudo (ou assim Ive nos ensinou), deixamos aqui apenas esse comentário de ninguém mais, ninguém menos que Steve Jobs sobre o entrevistado-fantasma do dia: “Se eu tive um parceiro espiritual na Apple, foi o Jony. Jony e eu pensamos na maioria dos produtos juntos. Ele entende o quadro geral, assim como os mais infinitesimais de cada produto. E ele entende que a Apple é uma empresa de produtos. Ele não é apenas um designer. É por isso que ele trabalha diretamente para mim. E ele tem mais poder operacional do que qualquer outro na Apple, exceto eu”. 

Jony, sua carreira tem sido esmiuçada na última semana, por isso queremos ir um pouco antes: o que você gostava de fazer quando era criança, como era na escola, o que te levou para o design?

Eu sempre gostei de desenhar e de fazer objetos. A razão para que eu desenhava era mais para ajudar a montar os objetos, não era um desenho livre, mas tinha uma finalidade. Depois eu descobri que isso se chamava design. Meu pai era um bom artesão – ele era ourives – então cresci entendendo como os objetos são feitos. Isso é algo fácil de se desprezar, mas tudo que usamos foi projetado e pensado. Crescer com essa apreciação da natureza dos objetos me influenciou muito. 

Na escola eu não era particularmente bom em qualquer tema que não fosse desenho e artes: era onde meu coração estava. Ironicamente, não ser muito bom em outras matérias, na verdade, me ajudou a focar no que eu gostava e no que eu era bom. Quando tinha uns 11 anos, eu gostava de montar pequenos objetos de papel cartão. Eu lembro de fazer uma caixa com tampa, e de tentar fazê-la de forma perfeita: refiz muitas vezes até que o resultado ficasse do jeito que queria. Não era sobre a caixa, mas sobre o processo. 

Isso me acompanhou com o tempo. Uma das principais características de como eu trabalho é que tenho que ser completamente envolvido em como fazer o objeto: não dá para criar um design no abstrato e depois mandar outra pessoa construir aquilo. Eu já passei meses nos lugares que eles fazem os produtos. Eu não sei como ser um designer eficiente sem fazer isso. 
(Entrevista para a Vogue, em 2 de abril de 2018)

Você entrou na Apple em 92, mas começou a, de fato, assinar os produtos quando o Steve Jobs voltou à empresa. Como foi essa transição, principalmente pensando que a Apple passava por um período bem negativo em termos financeiros nessa época?

Era um designer independente em Londres, a Apple era uma cliente. Eu entrei na Apple em 1992, estava bastante interessado na empresa e na cultura, não particularmente na tecnologia. Quando entrei na Apple ela estava começando a cair em total irrelevância, foi um momento muito doloroso.  Passei por uma sucessão de CEOs que tinham o objetivo de virar o jogo para a empresa. E isso significava, principalmente, “vamos fazer mais dinheiro do que a gente perde”. Era uma “virada de mesa” com esforço voltado para a grana. E, o que mais nos chocou quando Steve voltou em 96 foi que ele não falava de dinheiro, de jeito algum. E olha que a empresa estava perdendo uma quantidade fabulosa de capital a cada trimestre. Ele não falava de dinheiro, ele focava no produto. O foco no produto foi direto. No lugar de falar em cortar custos, ele chegou e questionou sobre a qualidade do produto.

E isso me leva à minha primeira experiência com ele. Foi algo que nunca tinha passado antes, e não passei de novo desde então. Mas nós não nos demos bem na primeira reunião. Steve entrou no estúdio de design e percebeu que o que a gente estava fazendo ali não era exatamente o que a Apple estava vendendo. E ele fez uma observação, muito bem articulada, dizendo – em voz alta e clara – o quanto eu estava sendo incrivelmente incompetente na empresa. Foi algo meio duro de escutar, era a verdade, mas a situação estava pior do que as palavras dele.  No final, viramos amigos muito próximos. Nossas famílias saíam de férias juntas, e a gente ia trabalhar juntos todos os dias. A gente almoçava junto e, nos primeiros meses, ele passava parte das tardes no estúdio de design. 

Mas o que ficou comigo, de verdade, dessa situação toda e da relação que criei com o Steve foi o processo criativo: de tentar comunicar a ideia um para o outro, e, assim, transformá-la em uma coisa possível de ser feita. Tudo começa de maneira tão frágil, mas vai tomando força. É algo que ainda amo no design: você consegue fazer um pensamento frágil se tornar poderoso, e é algo incrível.
(Apresentação na TechFest da New Yorker em 6 de outubro de 2017)

Quando eu [e Steve] olhávamos para os objetos, nossos olhos fisicamente viam e o que a gente percebia era igual. Então fazíamos as mesmas perguntas, tínhamos as mesmas curiosidades sobre as coisas. 

A gente chegava num hotel [para alguma viagem da Apple]. Eu fazia check in, subia para o quarto e nem mesmo desfazia minhas malas. Eu apenas sentava na cama e esperava pela ligação inevitável de Steve: ‘hey, Jony, esse hotel é uma porcaria, vamos para outro”. 

Muito foi escrito e filmado sobre Steve e eu não reconheço o meu amigo em grande parte dessas obras. Sim, ele tinha uma opinião cirurgicamente precisa. Sim, isso podia doer. Sim, ele questionava muitas vezes “isso é bom o suficiente? está certo”. Mas ele era tão inteligente. Suas ideias eram ousadas e magníficas. Ele conseguia tirar o ar da sala com elas. E quando as ideias não vinham, ele mantinha a crença de que nós iríamos produzir algo grande. E, oh, a alegria que foi chegar lá!

O produto que você tem na sua mão, ou coloca no seu ouvido, ou tem no seu bolso, é mais pessoal do que qualquer produto que você tem em cima da sua mesa. Há um desafio enorme em fazer algo tão difícil e exigente quanto tecnologia se tornar íntima e pessoal, e isso foi o que me manteve atraído à Apple. As pessoas têm uma relação incrível com o que a gente faz.
(Entrevista à revista Time em 17 de março de 2014)

Você foi a mente por trás de produtos muito icônicos da Apple, como o iPod, o iPhone e o iPad (tem gente até tentando imaginar como seria se você assinasse o design do mundo, sério), tem como falar para gente como é o processo de criação na Apple? De maneira prática mesmo…

Primeiro devo dizer que tive sorte de fazer parte de uma equipe de design incrível nos últimos 20 anos. O time base de design, na verdade, é bem pequeno, tem uns 16 ou 17 de nós. Foi uma opção em manter desse tamanho. Uma das coisas que fazemos, é que, como time, a gente se encontrava três ou quatro vezes por semana. Isso ajudava na colaboração dos projetos em que cada um estava focado. Você sabe as mesas que têm nas lojas da Apple pelo mundo? Temos algumas iguais no estúdio de design, porque a gente observa até mesmo a maneira na qual ele pode ser exposto. Sentamos ao longo das mesas e desenhamos. Ainda desenhamos muito. Um processo criativo em que na terça-feira não tem ideia alguma, na quarta-feira tem uma ideia. E se torna uma conversa. Uma maneira do design começar é pela conversa. E é envolve algumas pessoas, é algo muito exclusivo. Outra coisa que fazia toda diferença no processo é transformar a ideia em um protótipo. A gente faz muitos modelos, de metal, de plástico. Há uma mudança profunda quando os modelos começam a aparecer, dá foco para o time. Quando eles estão lutando para tentar comunicar as ideias abstratas, o modelo ajuda a descrever o que estamos tentando fazer. O modelo nos ajuda a ver os problemas. Normalmente o produto final fica muito diferente do modelo, mas quando tem o produto para manusear tudo muda na equipe. 
(Conversa no New Establishment Summit da Vanity Fair em 16 de outubro de 2014)

No Apple Park o time de design vai se juntar todo num mesmo espaço, todos os especialistas. Dá para juntar essas áreas diferentes de expertise e com experiências diversas. Estou confiante que isso nunca aconteceu antes, ter designers industriais, próximos a designers de fontes, ao lado de quem faz protótipo, e de especialistas hápticos. Estou bastante confiante de que isso nunca aconteceu antes, de ter designers industriais próximos a designers de fontes, ao lado de protótipos, ao lado de especialistas hápticos. Os melhores especialistas hápticos do mundo estão sentados ao lado de um bando de caras que têm doutorado em ciência dos materiais. Entender quais são as oportunidades e as possibilidades para o futuro requer essa colaboração entre áreas.
(Entrevista ao Financial Times, em 19 de outubro de 2018)

Jony, sua carreira tem sido esmiuçada na última semana, por isso queremos ir um pouco antes: o que você gostava de fazer quando era criança, como era na escola, o que te levou para o design?

Eu sempre gostei de desenhar e de fazer objetos. A razão para que eu desenhava era mais para ajudar a montar os objetos, não era um desenho livre, mas tinha uma finalidade. Depois eu descobri que isso se chamava design. Meu pai era um bom artesão – ele era ourives – então cresci entendendo como os objetos são feitos. Isso é algo fácil de se desprezar, mas tudo que usamos foi projetado e pensado. Crescer com essa apreciação da natureza dos objetos me influenciou muito. 

Na escola eu não era particularmente bom em qualquer tema que não fosse desenho e artes: era onde meu coração estava. Ironicamente, não ser muito bom em outras matérias, na verdade, me ajudou a focar no que eu gostava e no que eu era bom. Quando tinha uns 11 anos, eu gostava de montar pequenos objetos de papel cartão. Eu lembro de fazer uma caixa com tampa, e de tentar fazê-la de forma perfeita: refiz muitas vezes até que o resultado ficasse do jeito que queria. Não era sobre a caixa, mas sobre o processo. 

Isso me acompanhou com o tempo. Uma das principais características de como eu trabalho é que tenho que ser completamente envolvido em como fazer o objeto: não dá para criar um design no abstrato e depois mandar outra pessoa construir aquilo. Eu já passei meses nos lugares que eles fazem os produtos. Eu não sei como ser um designer eficiente sem fazer isso. 
(Entrevista para a Vogue, em 2 de abril de 2018)

Você entrou na Apple em 92, mas começou a, de fato, assinar os produtos quando o Steve Jobs voltou à empresa. Como foi essa transição, principalmente pensando que a Apple passava por um período bem negativo em termos financeiros nessa época?

Era um designer independente em Londres, a Apple era uma cliente. Eu entrei na Apple em 1992, estava bastante interessado na empresa e na cultura, não particularmente na tecnologia. Quando entrei na Apple ela estava começando a cair em total irrelevância, foi um momento muito doloroso.  Passei por uma sucessão de CEOs que tinham o objetivo de virar o jogo para a empresa. E isso significava, principalmente, “vamos fazer mais dinheiro do que a gente perde”. Era uma “virada de mesa” com esforço voltado para a grana. E, o que mais nos chocou quando Steve voltou em 96 foi que ele não falava de dinheiro, de jeito algum. E olha que a empresa estava perdendo uma quantidade fabulosa de capital a cada trimestre. Ele não falava de dinheiro, ele focava no produto. O foco no produto foi direto. No lugar de falar em cortar custos, ele chegou e questionou sobre a qualidade do produto.

E isso me leva à minha primeira experiência com ele. Foi algo que nunca tinha passado antes, e não passei de novo desde então. Mas nós não nos demos bem na primeira reunião. Steve entrou no estúdio de design e percebeu que o que a gente estava fazendo ali não era exatamente o que a Apple estava vendendo. E ele fez uma observação, muito bem articulada, dizendo – em voz alta e clara – o quanto eu estava sendo incrivelmente incompetente na empresa. Foi algo meio duro de escutar, era a verdade, mas a situação estava pior do que as palavras dele.  No final, viramos amigos muito próximos. Nossas famílias saíam de férias juntas, e a gente ia trabalhar juntos todos os dias. A gente almoçava junto e, nos primeiros meses, ele passava parte das tardes no estúdio de design. 

Mas o que ficou comigo, de verdade, dessa situação toda e da relação que criei com o Steve foi o processo criativo: de tentar comunicar a ideia um para o outro, e, assim, transformá-la em uma coisa possível de ser feita. Tudo começa de maneira tão frágil, mas vai tomando força. É algo que ainda amo no design: você consegue fazer um pensamento frágil se tornar poderoso, e é algo incrível.
(Apresentação na TechFest da New Yorker em 6 de outubro de 2017)

Você foi a mente por trás de produtos muito icônicos da Apple, como o iPod, o iPhone e o iPad (tem gente até tentando imaginar como seria se você assinasse o design do mundo, sério), tem como falar para gente como é o processo de criação na Apple? De maneira prática mesmo…

O produto que você tem na sua mão, ou coloca no seu ouvido, ou tem no seu bolso, é mais pessoal do que qualquer produto que você tem em cima da sua mesa. Há um desafio enorme em fazer algo tão difícil e exigente quanto tecnologia se tornar íntima e pessoal. As pessoas têm uma relação incrível com o que a gente faz.
(Entrevista à revista Time em 17 de março de 2014)

Primeiro devo dizer que tive sorte de fazer parte de uma equipe de design incrível nos últimos 20 anos. O time base de design, na verdade, é bem pequeno, tem uns 16 ou 17 de nós. Foi uma opção em manter desse tamanho. Uma das coisas que fazemos, é que, como time, a gente se encontrava três ou quatro vezes por semana. Isso ajudava na colaboração dos projetos em que cada um estava focado. Você sabe as mesas que têm nas lojas da Apple pelo mundo? Temos algumas iguais no estúdio de design, porque a gente observa até mesmo a maneira na qual ele pode ser exposto. Sentamos ao longo das mesas e desenhamos. Ainda desenhamos muito. Um processo criativo em que na terça-feira não tem ideia alguma, na quarta-feira tem uma ideia. E se torna uma conversa. Uma maneira do design começar é pela conversa. E é envolve algumas pessoas, é algo muito exclusivo. Outra coisa que fazia toda diferença no processo é transformar a ideia em um protótipo. A gente faz muitos modelos, de metal, de plástico. Há uma mudança profunda quando os modelos começam a aparecer, dá foco para o time. Quando eles estão lutando para tentar comunicar as ideias abstratas, o modelo ajuda a descrever o que estamos tentando fazer. O modelo nos ajuda a ver os problemas. Normalmente o produto final fica muito diferente do modelo, mas quando tem o produto para manusear tudo muda na equipe. 
(Conversa no New Establishment Summit da Vanity Fair em 16 de outubro de 2014)

No Apple Park o time de design vai se juntar todo num mesmo espaço, todos os especialistas. Dá para juntar essas áreas diferentes de expertise e com experiências diversas. Estou confiante que isso nunca aconteceu antes, ter designers industriais, próximos a designers de fontes, ao lado de quem faz protótipo, e de especialistas hápticos. Estou bastante confiante de que isso nunca aconteceu antes, de ter designers industriais próximos a designers de fontes, ao lado de protótipos, ao lado de especialistas hápticos. Os melhores especialistas hápticos do mundo estão sentados ao lado de um bando de caras que têm doutorado em ciência dos materiais. Entender quais são as oportunidades e as possibilidades para o futuro requer essa colaboração entre áreas.
(Entrevista ao Financial Times, em 19 de outubro de 2018)

Tudo muito legal até agora, mas e quanto às falhas, os erros, os produtos que precisam passar por novas remodelações?

Quando sentamos para desenvolver um produto, é difícil identificar quem é o engenheiro elétrico, quem é o engenheiro mecânico e quem é o designer industrial. Uma parte fundamental do nosso processo é que erramos juntos. Não tem como aprender sem tentar ideias diferentes e sem falhar muitas vezes.
(Entrevista ao The Thelegraph em 23 de maio de 2012 )

Você pode dizer que sabe [quando um produto está pronto], mas seus instintos podem estar falando outra coisa. Porque você nunca sabe. Eu gostaria de conseguir explicar isso bem, sei que farei um trabalho terrível. A diferença entre uma ideia e um modelo inicial não está no seu tempo, mas é que você já resolveu muitos problemas entre um e outro. Então para 99% do processo de design e desenvolvimento, aquele produto ainda está falhando. Assim, passamos a maior parte do tempo preocupados, pensando no que funciona e no que não funciona.  E sei que isso parece meio ingênuo e muito óbvio, mas isso é realmente um grande problema. E então há essa fé estranha que você tem, então é quando você depende novamente do grupo de pessoas com quem você tem feito isso por anos e anos e anos, e nós podemos nos olhar com esse tipo de surpresa, de olhar aterrorizado. É aí que a experiência, não apenas como indivíduo, mas como experiência em grupo, é realmente importante
(Entrevista a jornalista da Fast Company em evento no Hirshhorn Museum, em 12 de junho de 2017)

O iPhone X que anunciamos, por exemplo, é uma tecnologia [tanto do tamanho da tela, quanto de reconhecimento facial] que estamos trabalhando por cinco anos. E tivemos protótipos enormes dele. Há uma tendência [do mercado], e é claro que existe, com o benefício de pensar retrospectivamente, tudo no iPhone X parece inevitável. Mas durante 99% do tempo, esse telefone não funcionou para a gente. Para a grande maioria do ciclo de desenvolvimento, tudo o que tínhamos eram coisas que falharam. Por definição, se [os protótipos] não falhassem no meio do caminho, o nosso trabalho já estava pronto. 
(Reportagem da Business Insider em 7 de outubro de 2017)

Você foi um dos caras que recebeu a primeira ligação do iPhone, esteve na equipe que produziu o smartphone, o que pensa hoje sobre o uso desenfreado do celular? 

Eu acho que é bom estar conectado, a grande questão aqui é o que o usuário faz com essa conexão. Eu acho que é da natureza da inovação você não conseguir prever todas as consequências daquilo que inventa. Na minha experiência, há consequências surpreendentes. Algumas são fabulosas, outras menos. Vemos isso como um processo orgânico, que pode mudar. O importante, é continuar a ponderar e entender aquilo que você criou. Temos trabalhado bastante não apenas em entender o quanto tempo o usuário utiliza o device, mas também como ele está usando. Por isso acrescentamos a função “screen time” no iOS. Acho que esse é o desafio, o que eu mais me preocupo é a maneira que o nosso ambiente e o nosso contexto afeta o jeito com que nos relacionamos uns com os outros.  Então quando você está frente a frente com alguém, tem uma série de comportamentos que são considerados aceitáveis. E eu noto o quanto essa interação se deteriora quando as pessoas estão atrás do volante do carro – onde elas são, geralmente, mais rudes e menos educadas. Porque existem duas barreiras ali: a velocidade e o vidro. Eu acho que quanto mais você coloca essas barreiras, mais a comunicação fica apenas transacional, e é aí que as pessoas tendem a ser menos gentis. Por isso que sempre estamos tentando trabalhar na nuance. Tentando transformar a comunicação [pelo celular] em algo menos transacional, mais pessoal, como melhorar os emojis. É uma forma de restaurar a humanidade na maneira com que a gente se conecta. 

Não vemos as nossas responsabilidades acabando quando o produto é vendido. Acho importante, nós aprendemos muito, que informa e influencia os nossos próximos passos. Não tem ambiguidade para a gente: temos uma responsabilidade moral e cívica com as pessoas e com as nossas criações. 
(Entrevista à Anna Wintour no Wired 25, em 15 de outubro de 2018)

Agora, Jony, tendo em vista essa carreira super rica na Apple, o que te motivou a sair e criar a sua agência de design independente LoveFrom?

Há algumas semanas nós tivemos o lançamento oficial do Apple Park. Foi um projeto que eu comecei a trabalhar em 2004. E isso foi muito significativo porque foi para a gente. Acho que parte do timing da minha saída e da criação da LoveFrom está ligado a ter uma clareza do que é bom para a saúde e para a vitalidade do time de design. Eu estou ansioso para contribuir de várias maneiras com os projetos que estamos trabalhando juntos há anos. Eu certamente tenho uma ambição e sinto quase uma obrigação moral de ser útil. 

Se você está fazendo algo que será verdadeiramente inovador, é difícil, difícil e leva tempo. Isso geralmente requer uma tecnologia que leva anos para se desenvolver. Há produtos em que estamos trabalhando há vários anos. Estou muito animado para continuar trabalhando nisso. E também há alguns novos projetos que eu vou desenvolver sozinho.

Lembro que teve uma reunião de funcionários há alguns anos atrás, onde Steve [Jobs] falava. Ele disse que uma das motivações fundamentais para criar algo era fazê-lo com amor e com cuidado. Mesmo que você provavelmente nunca se encontre com todos usuários, nunca possa falar com cada um, quando você faz algo com cuidado, amor e atenção, está expressando a sua gratidão a essa pessoa e à humanidade. Minha empresa se chama “LoveFrom” com isso em mente. 

O que eu farei agora? Bem, tem algumas áreas que são paixões naturais para mim. O trabalho que tenho feito na tecnologia wearable é uma dessas paixões – com a tecnologia se tornando ainda mais pessoal, o que é inevitável uma vez que o objeto é vestido. Vimos um poder extraordinário de uso da tecnologia ligado à saúde e ao bem-estar. Essa é uma área que sou fascinado.
(Entrevista ao Financial Time em 27 de junho de 2019)

E agora, apenas para terminar de maneira mais leve, você não fechou a sua contribuição de design ao mundo tecnológico, mas também ao cinema. Você foi um dos caras que ajudou a criar a Eva, de “Wall-E”, mas poderia nos falar um pouco mais sobre como ajudou na nova trilogia do Star Wars?

Eu tive uma conversa [com JJ Abrams, diretor do primeiro filme da nova trilogia de Star Wars] sobre os sabres de luz. Eu disse para ele que seria mais interessante se essas espadas fossem menos precisas, se fossem mais rústicas. Essa “nova arma” poderia ser mais analógica e primitiva, dessa forma, ela poderia ser mais sinistra
(Reportagem da revista New Yorker de 16 de fevereiro de 2015)