GHOST INTERVIEW #5 | Daniel Ek

23 de Janeiro de 2019 Off Por morse
Shuffle play 

Para comemorar o lançamento do MorseCast, o Ghost Interview da semana é com Daniel Ek. Está perdido? O sueco é o CEO e co-fundador do Spotify, serviço de streaming de áudio mais popular do mundo, que já tem 200 milhões de usuários mensais e quase 100 milhões de assinantes.

Com 18 anos, Daniel tentou trabalhar no Google, mas foi rejeitado. Seguiu com seu plano B: viver de música, a opção também não deu certo. Ele, então, resolveu juntar essas duas apostas “erradas” para fazer um plano C: acabar com a pirataria na música por meio da tecnologia. Sabe como é, suecos (e brasileiros) não desistem nunca. E não é que deu certo? Quando tinha 25 anos ele lançou oficialmente o Spotify.

Antes mesmo de completar 30, a plataforma já era sucesso mundial.Como ele está lá em Estocolmo e é um cara meio caladão, juntamos aqui as principais falas de Daniel sobre Mobile e Big Data. E, como diz no Spotify, dá um play aí, que essa playlist foi feita para você.
Discover weekly
O Napster te influenciou a pensar em tecnologia e música. O Sean Parker foi um dos seus principais investidores no começo do Spotify. Como você fez para mudar a sua própria visão sobre pirataria e sobre o mercado da música?

Para mim, o Napster foi um momento de epifania porque, até então, a internet era basicamente texto e gifs. Do nada, veio esse programa que me deu acesso a toda a música do mundo. Para alguém que curtia muito música, que era o meu caso, foi fenomenal. Descobri muitos artistas e bandas a partir do Napster. Quando ele fechou, eu pensei que não tinha como colocar o gênio de volta na lâmpada, e que um sistema desse deveria continuar existindo.Mas tinha algo errado, desequilibrado. Então fiquei me questionando: por que ninguém conseguiu fazer o Napster funcionar para os usuários e para os artistas? Eu era um pouco inocente nessa época, assim como muitos outros empreendedores. Eu não entendia muito o que precisaria ser feito, no sentido legal, para fazer essa plataforma de música funcionar. A maneira que eu expliquei para o pessoal que iniciou o Spotify comigo foi assim: “ E se se a gente conseguir criar uma plataforma que nos dá a sensação que o Napster dava de que temos toda a música do mundo no nosso HD?  Se pudermos criar esse sentimento, nós conseguimos construir algo muito melhor do que a pirataria, então vamos fazer com que as pessoas consumam”.(…)Um dos pontos principais foi a experiência. Li num livro que o cérebro leva 200 milissegundos para perceber qualquer coisa, seja imagem, texto ou som. Eu falei para o time de engenharia que a gente deveria atingir esses 200 milissegundos – na hora do play. Estávamos em 2006, isso foi considerado um pedido maluco. Com o tempo a gente conseguiu chegar nesses 200 milissegundos e baixou para metade disso. A gente realmente pensou em detalhes para criar essa experiência fora do comum.
(Podcast Master of Scale,18 de setembro de  2018 ) 

Nesse sentido de criar a melhor experiência possível, qual foi a importância do mobile para o Spotify?

Por muito tempo, nós desconsideramos o impacto do mobile no mundo – o que hoje parece estranho. Nós começamos num período quando o desktop era o produto principal. Não tínhamos nem licenciado um produto para celular que não fosse o premium, isso porque a gente não achava que a pessoa poderia usar smartphone e desktop ao mesmo tempo. Achamos uma ótima ideia ter o aplicativo como o “produto extra”.Mas, como somos um produto freemium, somos altamente dependentes de ter usuários que não pagam envolvidos com o serviço e de ter uma comunidade ativa. Ou seja, desconsiderar o mobile foi um grande erro estratégico.

Foi uma situação bastante irônica: enquanto nossos investidores estavam animados com os números iniciais da plataforma, a gente estava em modo desespero. A gente estava“puta merda, acabamos de cometer o maior erro estratégico”. Tivemos que reinventar a empresa em 18 meses para consertá-lo: basicamente, revisamos todos os contratos assinados com a indústria fonográfica. 

Foi trocar os motores do avião no meio do voo. Quando abrimos o aplicativo com o serviço gratuito de streaming em 2013 eu já senti que foi um pouco tarde. Se tivéssemos lançado seis meses depois, acho que a empresa teria morrido.(Entrevista ao Music Ally, em 30 de novembro de 2016

Mas, diz para a gente, qual a real mágica em criar a melhor experiência para o usuário?
Eu não acho que existe uma fórmula mágica. Nós não estamos apenas tentando ser melhor do que a competição. Nossa estratégia é ter o melhor produto. Para ter o melhor produto, nós usamos os dados de como as pessoas estão nos consumindo, e usamos essas informações para tomar decisões .(Entrevista dada ao All Things SD em novembro de 2013)
Os seus algoritmos de playlist usam até os dados de quando pulamos a música. Quais outras informações usam? E por que isso importa para o negócio de vocês?

De maneira resumida, são três partes [que captamos]: as playlists, o seu perfil de gosto e a nossa biblioteca enorme. O Spotify gera milhares de terabytes de dados todos os dias que nós analisamos para entender se o usuário pode ou não se interessar por uma música que acabamos de adicionar na nossa playlist e que têm características que outras 100 pessoas no mundo gostam. Quando a gente acha essa agulha no palheiro, a magia acontece. Para a gente, isso é apenas o começo.Quando a gente olha para o comportamento das pessoas, a gente vê maioria a descrever seus gostos musicais como “eclético” ou bem específicos. A verdade é que, nos nossos hábitos, somos bem específicos sobre o que queremos escutar, mas não por gênero de música. 

Nossos hábitos e momentos são o que definem nosso gosto musical, muito mais do que qualquer outra coisa. Pessoas querem músicas específicas para quando eles estão se arrumando para ir no bar, ou quando estão no final de semana, outra música para jantar em casa, outra para malhar ou dormir. Quebrar essas barreiras e tirar a música do rótulo do gênero abre o caminho para uma programação muito mais interessante e relevante quando se trata de descobertas musicais.Nós realmente queremos uma trilha sonora para cada momento da nossa vida.

Milhões de pessoas, por exemplo, dormem todos os dias (ou noites!) escutando ao Spotify. Esse é um comportamento completamente novo para uma parte da audiência e para a indústria. Então quando pensamos no Spotify no futuro, estamos pensando em trazer a música – e outros tipos de mídia – para esses momentos da vida. Para fazer isso, melhorar as recomendações e as indicações de conteúdo para os momentos é crucial.
(Respostas dadas por Ek a usuários do site Quora, em 2016

Como o Spotify ganha na colaboração de dados com os artistas? E como entender o comportamento da audiência pode mudar a indústria?
Dados e insights são, definitivamente, parte da nossa plataforma e são fundamentais para a nossa visão do market place. Como um exemplo específico, tenho um artista como Metallica, que muda a sua setlist em cada cidade que vai da turnê apenas olhando os dados de geolocalização e de popularidade das músicas. Eles olham quais músicas são mais acessadas nas cidades que vão em turnê.Nunca antes estivemos em um local no tempo em que você pudesse tomar tantas decisões informadas e entender seu público, como agora. Os artistas podem se beneficiar disso.
(Fala dada a investidor em em call do segundo trimestre de 2018

Quando alguém cria uma playlist no Spotify e coloca um álbum completo nela, eles não escutam as músicas de uma vez só. O que acontece, na verdade, é que as pessoas escutam o álbum repetidamente. O que acho interessante é mostrar que o ciclo de venda e promoção de álbuns aumentou. Antes era entre quatro a 12 semanas, agora o efeito de lançamento fica entre 25 e 35 semanas. Às vezes um ano.(Entrevista dada ao site do Grammy, 2 de dezembro de 2014

Os artistas podem usar a hiper-segmentação de audiência para melhorar a eficiência dos shows. O problema com os concertos hoje não são os grandes atos, mas os shows de até duas mil pessoas, porque não há eficiência no marketing. Mas se você conhece a audiência e segmenta por localização, por super fans, o artista pode marcar o evento apenas até ter, no mínimo, 900 fãs engajados com isso. O risco diminui. Não é mais um mercado de “tamanho único” para os artistas.(Entrevista à Fast Company, em 8 de julho de 2018

Sabemos que o Spotify já está trabalhando em umdispositivo para tocar músicas em carros. O que significa o mobile para vocês agora?

O mobile é, certamente, uma super plataforma se comparada com qualquer outra. E é super animadora. E eu quero dizer, é um espaço onde, honestamente, não tinha existido muita inovação que não fosse o smartphone. Agora, existe um interesse todo novo em speakers, fones, home devices… E as pessoas estão comprando em massa esses dispositivos, o que é fenomenal. Eu acho que, uma vez que esses dispositivos sejam usados, isso acrescenta mais um momento para os usuários escutarem as músicas.Nós somos, primariamente, uma plataforma de áudio. E quando você pensa no mundo hoje em dia, parece que todo mundo está competindo pela atenção em vídeo. Todos estão competindo pelos olhos dos usuários, mas será que os olhos valem 10 vezes mais do que os ouvidos? Eu não acho. Então acredito que seja um espaço que vai ganhar mais e mais com o tempo.(Entrevista ao Recode, em 31 de maio de 2018)