GHOST INTERVIEW #40 | MASAYOSHI SON

24 de setembro de 2019 Off Por morse

É Masa!

O Softbank e seu CEO, Masayoshi Son, tem chacoalhado o mercado de tecnologia desde que começou com o primeiro Vision Fund, fundo de US$ 100 bilhões voltado para startups, lá em 2017. Eles chegaram na América Latina há alguns meses, e depois do quarto ou do quinto aporte milionário feito em menos de 100 dias, a gente entendeu a força real que Son tem na mudança de paradigmas. Ao Ghost Interview da semana cabe o papel de compreender de onde vem essa força, visão e energia – e o que ela significa para a gente.

Criado em 1981, o Softbank passou por todas as transições do mundo digital: do PC – daí o nome “softbank” (que vem de “banco de software”) – passando pela internet – Masayoshi, ou Masa, como gosta de ser chamado, foi um dos primeiros investidores do Alibaba – até a mobilidade: a companhia é dona da Sprint, da Verizon Japan e da ARM, bam-bam-bam dos chips. E, neste ano, eles ainda estão levantando uma segunda leva de US$ 100 bilhões para um segundo Vision Fund. Masa está investindo em tech com apenas uma visão em mente. Qual é ela? Você vai saber na entrevista: 

A Singularidade chamou

https://asia.nikkei.com/Business/CEO-in-the-news-SoftBank-s-Masayoshi-Son-gets-his-entrepreneurial-streak-from-dad

Masa, como você começou a sua carreira, quem te influenciou e por que acabou montando o “Softbank”, que nem banco é?
Quando tinha 16 anos, meu sonho era conhecer o head do McDonald’s [do Japão], na época ele tinha escrito um livro que tinha se tornado um best seller. Eu liguei para a sede do McDonald’s [em Tóquio] e fui insistente, a ponto de eu ir até lá para tentar falar com ele. A secretária sempre falava que ele não tinha tempo, mas eu falei que ele nem precisaria falar comigo, eu só queria vê-lo ao vivo. Disse que não iria incomodar. No final das contas, ele aceitou falar comigo, por 15 minutos. Eu perguntei para ele que negócio deveria montar, ele me falou “computadores, se eu tivesse a sua idade, nesse momento, nesse timing, eu iria para a área de computadores”. Então ele me falou o conselho que uso até hoje: “não olhe para a indústria do passado, mas para a do futuro”. 

Ele também me falou que deveria estudar nos Estados Unidos, e assim fiz. Fui para a Berkeley, mas voltei para o Japão depois de formado, tinha prometido para minha mãe que voltaria. O Softbank foi criado em 1981, no começo da época do PC. Não tinham tantos softwares na época, eu comecei agregando todos os tipos de software em um espaço só, então os vendia para as lojas de computadores. Era um “banco de software”, ou seja: Softbank. 

(Entrevista no The David Rubenstein Show, em 11 de outubro de 2017)

Pulando alguns anos, é verdade que você esteve envolvido na criação do iPhone? Conta para a gente sua opinião sobre Steve Jobs.

Para mim, Steve Jobs foi o Leonardo Da Vinci da nossa época, combinou arte e tecnologia. Daqui a 500 anos, pessoas vão comparar Jobs com Da Vinci, tenho certeza. 

Dois anos antes de ele introduzir o iPhone. Na época eu queria entrar no negócio de telecomunicações, das operadoras, mas precisava de uma “arma”, um device bom. Pensei, quem poderia chamar para criar o melhor device no mundo? Só uma pessoa no mundo: Steve Jobs. Eu liguei para o Steve e fui vê-lo. Cheguei [na Apple] com um desenho super simples que tinha feito, uma mistura de iPod com telefone. Dei o papel para o Steve e ele disse “Masa, você não me dá esse desenho feio, eu tenho os meus”. Eu respondi que não precisaria dar para ele o meu papel, mas que, se ele estivesse criando algo assim, que eu queria poder vendê-los no Japão. Ele falou, “você é louco, não falamos com ninguém sobre esse projeto, mas, como você veio falar com a gente, eu posso ceder para você o direito [de venda no Japão]”. Isso aconteceu antes de eu comprar a Vodafone Japão.

Falei para ele se você puder me prometer a exclusividade da venda desse device “desconhecido”, eu iria atrás de uma operadora. Ele riu e falou que não assinaria nenhum papel, mas disse que deu a sua palavra. E eu fiz, comprei a Vodafone Japão.
(Entrevista ao programa Charlie Rose em 10 de março de 2014)

Você foi um dos primeiros grande investidores do Alibaba, teve um retorno altíssimo. Até hoje, muitos falam do seu estilo agressivo de investir, e dos seus retornos altos nos investimentos – só no ano passado, ficou em mais de 44%, Como, exatamente, você escolhe as empresas que vai investir?

Para falar a verdade, eu já investi tantas vezes, que muitas coisas eu não preciso calcular, nem pensar muito, eu consigo sentir. O Yoda diz “escute a Força, não pense, sinta”. Os instintos logo no começo [da conversa com o CEO] são mais importantes do que qualquer cálculo minucioso.

Eu sempre falo com o fundador da empresa, com o empreendedor por trás dela, e tento entender qual a sua visão dele do negócio. E sentir a paixão dele. Se ele é o cara certo, se tem energia o bastante para entender a fórmula [de sucesso do seu negócio] e mudá-la se for possível. No caso do Jack Ma, ele não tinha um plano de negócios, ele não fez uma apresentação, nos primeiros cinco minutos ele me falou que não precisava do dinheiro. Eu falei que queria investir. Ele tinha brilho nos olhos, dava para sentir a energia, e quando se tem esse tipo de energia, o modelo de negócios do momento não importa. Porque é a energia que mostra que ele tem força para evoluir. Tanto que o Alibaba mudou muito desde o primeiro aporte nosso, antes era uma empresa apenas B2B, agora esse negócio é 1% do total de receitas do Alibaba.

(WSJ CEO Council, em 16 de maio de 2018)

Outro ponto que você sempre bate na tecla é o da “singularidade”. O que significa, exatamente, esse conceito, e o que ele tem a ver com o Vision Fund? Falando em Vision Fund, qual tipo de empresa você está de olho no momento?

O conceito de singularidade é um que muitos ainda não acreditam, mas eu totalmente acredito, e ele significa o dia que o cérebro dos computadores, a inteligência artificial vai ultrapassar o cérebro humano. E isso vai ser a realidade daqui a 30 anos.

Tipicamente, o QI médio das pessoas é 100. Gênios como [Albert] Einstein tinham QI de média 200. Daqui a 30 anos, o QI dos computadores será de 10 mil. E eu chamo isso de superinteligência. Nos próximos 30 anos, teremos superinteligência integrada em robôs, ou num device que se mexe. Isso poderá mudar nossos estilos de vida radicalmente. 

Isso sem falar nos números da IoT, apenas a ARM [empresa de chips controlada pelo Softbank] deve vender 1 trilhão de chips para IoT nesse período. Tudo vai ser interconectado e inteligente. 

Agora, a singularidade é boa ou ruim? Se a IA será mais inteligente que nós, e ela estará dentro de robôs e carros, qual será o nosso trabalho? Qual será a nossa vida? Temos que nos perguntar essas questões filosóficas. Eu acredito que a IA vai ser nossa parceira. Se a gente usar errado, é um risco. Se usarmos voltados para o bem, vai melhorar a nossa vida. 

É por isso que eu estou tão apressado em investir, em levantar dinheiro para o Vision Fund, porque esse vai ser o cenário daqui a 30 anos. E se a gente não andar rápido, talvez a revolução da IA não venha para o bem da humanidade.
(Apresentação na MWC 2017 em 28 de fevereiro de 2017)

Todas as 70 companhias que investimos no último ano [2018] e metade das empresas do Vision Fund são centradas em inteligência artificial. Elas estão usando o poder da AI – para a evolução. Essa é a única área que eu estou focando hoje em dia. Então, nós estamos investindo os US$ 100 bilhões em apenas uma coisa: Inteligência Artificial.
(Entrevista à CNBC em 8 de março de 2019 )

Muitos falam que a atuação do Softbank no mercado está criando uma bolha de investimento, qual a sua opinião sobre isso?

Unicórnios estão nascendo um após o outro e nós conseguimos monetizar os investimentos mais rápido comparado com o que acontecia no começo da internet. Quando a revolução da internet começou, há mais de 20 anos, as pessoas me faziam perguntas similares, mas o que aconteceu no final das contas? A internet se espalhou de uma forma que chegou em todos os pontos da nossa vida. O mesmo acontecerá com a inteligência artificial. O mundo não vai cansar de AI. 

Aqueles que estão chamando o atual ambiente de ‘bolha’ e de ‘perigoso’ são aqueles que não entendem tecnologia. Para a gente que entende, agora é o ponto de partida para a revolução e para as oportunidades. 

As expectativas do mercado vão alcançar a força fundamental do Softbank e irão excedê-la. Sou paciente. Alguns diriam que os negócios de telecomunicações móvel já chegaram na maturidade. Mas, se os negócios investidos pelo fundo tiverem sucesso e gerarem retornos altos, eu acredito que o mercado ficará mais aliviado.
(Entrevista à Nikkei em 27 de julho de 2019)

Você sempre fala que quer que o Softbank dure muitos e muitos anos. É verdade que você tem uma visão para onde estarão daqui a 300 anos? Qual é ela?

Em 300 anos, talvez o Softbank não seja uma empresa que aposta tanto em mobile. O Softbank poderia ser um provedor de serviço de telepatia. E, à medida que os chips se comunicam de forma wireless, pessoas que falam idiomas diferentes – do chinês ao inglês – poderão usá-los para a tradução simultânea. Os devices [embutidos na cabeça] traduzirão automaticamente. Eu acho que esse dia chegará. Talvez consigamos nos comunicar telepaticamente com cachorros.

O Softbank não vai oferecer um produto só ou um único serviço, mas vai firmar parcerias com várias companhias diferentes, em linhas diversas de negócio. Espero fazer negócios com até 5 mil empresas nos próximos 30 anos. 
(Reportagem do site Quartz baseada em uma apresentação do Softbank, em 26 de outubro de 2017)

O Softbank criou um fundo de US$ 5 bilhões para a América Latina, a gente até fez uma Ghost com o Marcelo Claure, o responsável pelos investimentos por aqui, mas, diz para a gente, Masa, qual a sua visão para a nossa região?

O PIB da América Latina é o dobro do PIB da Índia e metade do PIB da China, mas a quantidade de capital de risco empregada nesses países é muito mais substancial do que o 1,5 bilhão de dólares aplicados na América Latina. A região há tempos recebe investimentos bem abaixo da média, do ponto de vista de um fundo de capital de risco em tecnologia. Isso representa uma grande oportunidade para se associar a empreendedores talentosos em mercados historicamente com falta de capital e de ambição. Nosso plano é mudar tal quadro drasticamente.

(Entrevista à revista Exame em 25 de junho de 2019)