GHOST INTERVIEW #26 | Happn: the Geolocation Crush

19 de junho de 2019 Off Por morse

Uma semana depois do dia dos namorados, a ressaca bateu forte. Inspirados pelos nossos conterrâneos, e por essa pesquisa do Deezer que indica que 70% dos brasileiros descobrem novos artistas e mudam de gosto musical depois de um pé na bunda, resolvemos mudar de ares. Fomos para Paris. Ou quase…. O mais perto que chegamos da capital francesa foi essa Ghost Interview com Didier Rappaport, o CEO e fundador do app de encontros, Happn.

Para quem está desligado do mundo dos apps de namoro, o Happn é o segundo maior do mundo do segmento, com 65 milhões de usuários espalhados em 50 cidades por aí – sendo 7,5 milhões apenas aqui no Brasil. Desde sua criação em 2014, o app tem usado dados (principalmente de localização) para se diferenciar do Tinder, o seu principal concorrente. Só isso já daria uma boa conversa para a Ghost, mas acrescentamos que Rappaport é um ponto fora da curva no assunto “CEOs de startups Mobile”: além de ser francês – ou seja, a quilômetros do Vale do Silício ou de Seattle, ele tinha 59 anos de idade quando fundou o Happn! Quer saber mais?! Dá uma lida:

Localizando a alma gêmea

Bem, Didier, a gente já deu uma pequena introdução sobre você, o que mais pode acrescentar sobre a sua vida profissional até chegar ao Happn? Aproveita e fala um pouco mais sobre o que é o Happn.

Sou um empreendedor muito jovem de 62 anos [hoje ele tem 64 anos!]. Já tive duas carreiras: trabalhei como um comerciante internacional de tecidos por quase metade da minha vida profissional. Mas quando eu presenciei a chegada da internet no mundo, lá nos anos 90, eu me tornei completamente obcecado. Eu decidi mudar para o espaço digital. Vendi a minha fatia na empresa que estava trabalhando na época e gastei uns dois ou três anos em casa, estudando como a web funcionava. Desde então, eu ajudei a desenvolver um bom número de companhias digitais. Fui um dos três fundadores do Dailymotion, que vendemos em 2011. Eu, eventualmente, iniciei o Happn em 2013, mas ele foi lançado como produto em 2014.

Antes de criar o Happn, a gente começou a perguntar para as pessoas do que elas não gostavam nos aplicativos de namoro. Eles nos falaram que os que existiam ainda eram muito virtuais, enganosos e demorados. Havia um sentimento de insatisfação generalizado. Queríamos trazer o mundo real para esse espaço do namoro online, mas era difícil levar esse conceito para o produto. Então chegamos na ideia de combinar informações de localização com interação em tempo real.

Quando as pessoas usam Happn, é um reflexo da vida real: você abre o aplicativo e sua timeline mostra pessoas que estão, no momento, a sua volta. Não é enganação, porque você só vê quem tem o app e está no seu raio. A geolocalização torna difícil a criação de perfis fakes.
(Entrevista ao The Telegraph, em 9 de janeiro de 2017)

Diferente de outros apps, o Happn não usa dados declarados de hobbies e interesses, mas geolocalização e dados vindos de apps parceiros – como o Spotify – por quê?

Não acreditamos que só porque duas pessoas gostam do mesmo filme, elas vão se apaixonar. Nosso sistema é mais baseado em outras centenas de dados, como os lugares que você vai, a maneira com que você cruza a cidade. Temos todos os dias milhões de Itens. O algoritmo consegue fazer a correlação sem nenhuma declaração [de hobbies].
(Entrevista ao Business Insider em 14 de abril de 2017)

Quando você está no Happn, você está na vida real porque as pessoas estão ao seu redor. E com eles você já compartilha, sem saber, muitas coisas. Se você abrir o aplicativo em um museu, você compartilha com as pessoas ao seu redor o amor ou um apetite pela arte. Podemos dizer que conhecemos essa pessoa “na vida real”. Nossas parcerias e funcionalidades com o Spotify, por exemplo, traz mais uma camada de entendimento. Para o usuário, significa que ele pode começar a conversa com o “crush” diferente. No lugar do banal “como você está?” Por que não começar a discussão com uma música?
(Entrevista à revista Forbes francesa em 2 de junho de 2017)

Falando em geolocalização – assunto que a gente gosta demais aqui no Morse, você já disse uma vez que os dados de geolocalização são a “pedra base” da reconciliação entre o mundo online e o offline, poderia explicar um pouco mais isso?

Em 2013, alguns sites de relacionamento e poucos apps já existiam, mas a experiência promovida por eles era virtual demais, consumia muito tempo e a combinação de pessoal era baseada em interesses e preferências mútuas. O Happn surgiu com o pensamento de que nós estamos o tempo todo cercados de pessoas interessantes na vida real, mas talvez não tenhamos a chance de conversar com elas.

As pessoas que vão aos mesmos lugares têm maior probabilidade de ter o mesmo estilo ou preferências que você. Por exemplo: se você vai a uma academia, show, evento esportivo ou bar, você pode encontrar pessoas no mesmo lugar e imediatamente ter algo em comum com ela. Com o mapa do Happn, nós vamos além em nossa promessa ao separar as dimensões do tempo e espaço; porque o tempo voa, mas os lugares permanecem parados.
(Entrevista ao G1 em 16 de junho de 2018)

A gente queria sair do conceito de “shopping online de humanos” que outros aplicativos e sites de namoro oferecem. Não é ético e não é respeitoso com os usuários. Se duas pessoas moram na mesma região, é muito provável terão hábitos parecidos de vida; se trabalham em espaços parecidos, é ainda mais possível que tenham empregos similares. Tempo e espaço, juntos, são um filtro duplo que provam que as pessoas têm algo em comum, uma conexão.
(Entrevista à revista European CEO, em 7 de março de 2019)

O Happn usa inteligência artificial para analisar os dados dos usuários – e também para fazer a recomendação de perfis, o que você diz para aqueles que temem um futuro dominado pelos algoritmos?

A AI vai mudar tudo, hoje em dia temos tantos dados para processar que é muito difícil entender o mundo em que vivemos. Então, apenas analisando todos esses dados é como podemos ver a capacidade das pessoas para alcançar o sucesso quando se encontram com alguém. Isso, no entanto, não significa que vamos ter certeza que a pessoa vai se apaixonar por outra, qualquer aplicativo que diga isso está mentindo, porque o amor não é algo que podemos planejar. A gente tenta usar a tecnologia para reforçar a probabilidade de que o encontro seja certo.
(Entrevista ao jornal Clarin em 8 de junho de 2018)

O aplicativo não decide nada por você. Você tem o controle. É como acontece na vida real. Você vai em um bar, vê várias pessoas e uma delas pode ser mais compatível com você. Com a tecnologia é a mesma coisa, mas tem a vantagem de as pessoas terem acesso antecipado a um mínimo de informações, como fotos e a descrição. Ele não mostra um perfil e diz que ele é o melhor para você. Ele mostra várias pessoas e você decide entre elas.
(Entrevista ao UOL Tecnologia em 2 de maio de 2019)

Sou um empreendedor muito jovem de 62 anos [hoje ele tem 64 anos!]. Já tive duas carreiras: trabalhei como um comerciante internacional de tecidos por quase metade da minha vida profissional. Mas quando eu presenciei a chegada da internet no mundo, lá nos anos 90, eu me tornei completamente obcecado. Eu decidi mudar para o espaço digital. Vendi a minha fatia na empresa que estava trabalhando na época e gastei uns dois ou três anos em casa, estudando como a web funcionava. Desde então, eu ajudei a desenvolver um bom número de companhias digitais. Fui um dos três fundadores do Dailymotion, que vendemos em 2011. Eu, eventualmente, iniciei o Happn em 2013, mas ele foi lançado como produto em 2014.

Antes de criar o Happn, a gente começou a perguntar para as pessoas do que elas não gostavam nos aplicativos de namoro. Eles nos falaram que os que existiam ainda eram muito virtuais, enganosos e demorados. Havia uma sentimento de insatisfação generalizado. Queríamos trazer o mundo real para esse espaço do namoro online, mas era difícil levar esse conceito para o produto. Então chegamos na ideia de combinar informações de localização com interação em tempo real.

Quando as pessoas usam Happn, é um reflexo da vida real: você abre o aplicativo e sua timeline mostra pessoas que estão, no momento, a sua volta. Não é enganação, porque você só vê quem tem o app e está no seu raio. A geolocalização torna difícil a criação de perfis fakes.
(Entrevista ao The Telegraph, em 9 de janeiro de 2017)

Diferente de outros apps, o Happn não usa dados declarados de hobbies e interesses, mas geolocalização e dados vindos de apps parceiros – como o Spotify – por quê?

Não acreditamos que só porque duas pessoas gostam do mesmo filme, elas vão se apaixonar. Nosso sistema é mais baseado em outras centenas de dados, como os lugares que você vai, a maneira com que você cruza a cidade. Temos todos os dias milhões de ítens. O algoritmo consegue fazer a correlação sem nenhuma declaração [de hobbies].
(Entrevista ao Business Insider em 14 de abril de 2017)

Quando você está no Happn, você está na vida real porque as pessoas estão ao seu redor. E com eles você já compartilha, sem saber, muitas coisas. Se você abrir o aplicativo em um museu, você compartilha com as pessoas ao seu redor o amor ou um apetite pela arte. Podemos dizer que conhecemos essa pessoa “na vida real”. Nossas parcerias e funcionalidades com o Spotify, por exemplo, traz mais uma camada de entendimento. Para o usuário, significa que ele pode começar a conversa com o “crush” diferente. No lugar do banal “como você está?” Por que não começar a discussão com uma música?
(Entrevista à revista Forbes francesa em 2 de junho de 2017)

Falando em geolocalização – assunto que a gente gosta demais aqui no Morse, você já disse uma vez que os dados de geolocalização são a “pedra base” da reconciliação entre o mundo online e o offline, poderia explicar um pouco mais isso?

Em 2013, alguns sites de relacionamento e poucos apps já existiam, mas a experiência promovida por eles era virtual demais, consumia muito tempo e a combinação de pessoal era baseada em interesses e preferências mútuas. O Happn surgiu com o pensamento de que nós estamos o tempo todo cercados de pessoas interessantes na vida real, mas talvez não tenhamos a chance de conversar com elas.

As pessoas que vão aos mesmos lugares têm maior probabilidade de ter o mesmo estilo ou preferências que você. Por exemplo: se você vai a uma academia, show, evento esportivo ou bar, você pode encontrar pessoas no mesmo lugar e imediatamente ter algo em comum com ela. Com o mapa do Happn, nós vamos além em nossa promessa ao separar as dimensões do tempo e espaço; porque o tempo voa, mas os lugares permanecem parados.
(Entrevista ao G1 em 16 de junho de 2018)

A gente queria sair do conceito de “shopping online de humanos” que outros aplicativos e sites de namoro oferecem. Não é ético e não é respeitoso com os usuários. Se duas pessoas moram na mesma região, é muito provável terão hábitos parecidos de vida; se trabalham em espaços parecidos, é ainda mais possível que tenham empregos similares. Tempo e espaço, juntos, são um filtro duplo que provam que as pessoas têm algo em comum, uma conexão.
(Entrevista à revista European CEO, em 7 de março de 2019)

O Happn usa inteligência artificial para analisar os dados dos usuários – e também para fazer a recomendação de perfis, o que você diz para aqueles que temem um futuro dominado pelos algoritmos?

A AI vai mudar tudo, hoje em dia temos tantos dados para processar que é muito difícil entender o mundo em que vivemos. Então, apenas analisando todos esses dados é como podemos ver a capacidade das pessoas para alcançar o sucesso quando se encontram com alguém. Isso, no entanto, não significa que vamos ter certeza que a pessoa vai se apaixonar por outra, qualquer aplicativo que diga isso está mentindo, porque o amor não é algo que podemos planejar. A gente tenta usar a tecnologia para reforçar a probabilidade de que o encontro seja certo.
(Entrevista ao jornal Clarin em 8 de junho de 2018)

O aplicativo não decide nada por você. Você tem o controle. É como acontece na vida real. Você vai em um bar, vê várias pessoas e uma delas pode ser mais compatível com você. Com a tecnologia é a mesma coisa, mas tem a vantagem de as pessoas terem acesso antecipado a um mínimo de informações, como fotos e a descrição. Ele não mostra um perfil e diz que ele é o melhor para você. Ele mostra várias pessoas e você decide entre elas.
(Entrevista ao UOL Tecnologia em 2 de maio de 2019)

No ano passado, o Tinder começou a utilizar a geolocalização no “Places”, vocês responderam com o mapa interativo do Happn. Você pensa em utilizar alguma feature da concorrência?

Primeiro, devo dizer que não vemos isso como uma ameaça, mas como algo bom. Descobrir as pessoas que cruzaram caminho com o usuário sempre esteve no DNA da Happn…. Então estamos lisonjeados que o Tinder quer incluir a mesma feature no seu produto. No entanto, nós nunca iremos usar o ‘swipe’ [botão do Tinder de aceitar ou não um perfil] no nosso produto. Ele transforma o usuário em produto, em objeto.
(Entrevista ao Techcrunch em 21 de junho de 2018)

O Brasil é o segundo maior mercado do Happn, vocês até fizeram um mapa dos crushes, diz aí para a gente,  como os usuários brasileiros se comportam no Happn? As diferenças culturais dos países se refletem no comportamento?

Lançamos o app em Paris, em 2014, e meses depois estávamos em Londres, Berlim e Nova York. E um ano depois já lançamos no mercado brasileiro, porque ouvimos que era um ótimo mercado para namoros. Então, viemos para cá, e estamos muito impressionados. Hoje temos mais de 7 milhões de usuários no Brasil. 

Sim, notamos algumas diferenças a depender do país. Por exemplo, as mulheres são muito mais ativas no Brasil no que diz respeito ao “primeiro movimento”, seja dando o primeiro like ou começando uma conversa. Eu ganhei muitos likes desde que eu cheguei aqui! 

No Brasil, há muito mais mulheres fazendo esse primeiro movimento do que, por exemplo, na França. Inclusive, em países do sul da Europa, como França, Itália e Espanha, as mulheres são muito menos ativas que no norte da Europa, como no Reino Unido ou nos países nórdicos. E as mulheres são bem ativas até mesmo na Índia – o que é impressionante. E nós gostamos disso: a melhor situação é a igualdade, porque num sistema de igualdade, nós não temos que ficar assegurando que as mulheres serão ativas; têm de ser natural.
(Entrevista à revista Exame em 6 de maio de 2019)

Espera, você tem o Happn instalado? Achamos que fosse comprometido!

Não, não estou solteiro! Estou no Happn, mas por motivos profissionais. Meus filtros no aplicativo são homens e mulheres de 18 a 70 anos, para que eu tenha o feeling do que está acontecendo no app. Eu tenho algumas conversas interessantes no Happn. Outro dia eu estava conversando com uma mulher que me disse “Ah, você diz que é o presidente do app? Até parece, não acredito em você”. E eu disse “ok, não precisa confiar em mim. Mas realmente sou eu!”. E ela disse que pensou que era uma campanha de marketing, e começamos a conversar. Foi muito legal.
(Entrevista à revista Exame em 6 de maio de 2019)

Ok, agora, falando sério, para onde está rumando o mercado de tecnologia de maneira geral?

Os ganhadores do futuro serão aqueles que conseguirem conciliar os mundos digital e físico. E eles vão mostrar que, no final das contas, só existe um mundo. Esses são os maiores desafios intelectuais e de oportunidades de negócio que estamos encarando hoje em dia.
(Entrevista ao TNW em 13 de fevereiro de 2018)